segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O que é um deserto? Definição, polêmicas e apontamentos


O que para todo professor de geografia parece óbvio pode se tornar uma complicação diante de questionamentos mais profundos. No universo de informação da rede os alunos podem nos surpreender com conceitos abrangentes, coerentes e questionáveis. O conceito de deserto pode ser um deles.
Primeiramente, numa questão como essa a fonte é primordial para podermos nos posicionar. Achamos por bem optar por José Bueno Conti, geógrafo com doutorado em geografia física e livre docente em desertificação em regiões tropicais pela USP [1]. Em um artigo sobre desertificação é abordado o conceito de deserto, vejam abaixo:

"[...] indica uma região de clima árido, onde a evaporação potencial excede a precipitação média anual, resultando em carência de água e fraco desenvolvimento da biosfera. A precipitação, além de escassa, apresenta alta variabilidade interanual, característica tanto mais acentuada quanto mais baixos forem seus volumes anuais médios. Os solos caracterizam-se por serem rasos, com
acentuada deficiência hídrica e tendência à concentração de sais. A drenagem é intermitente. A cobertura vegetal é esparsa, apresentando predominância de espécies xerófilas e fauna adaptada às condições de escassez de água sendo, nesse sentido, um climax ecológico. Os processos erosivos são comandados pela ação eólica, pois o trabalho dos ventos se faz sentir, aí, mais intensamente do que nas regiões úmidas."
Disponível em: http://cecemca.rc.unesp.br/ojs/index.php/climatologia/article/viewFile/2091/2203


Vejam que esse conceito, que temos a posição e defendemos de que é, senão o melhor, o que mais satisfaz para geografia pode ir de encontro a outros conceitos. Na web encontrarmos, definição de desertos que colocam as regiões polares se enquadrando como deserto.
Vejamos algumas.
Na revista Nova Escola online, repondendo a pergunta se existem desertos gelados:
"Sim, já que a definição de deserto é dada para áreas com baixos índices pluviométricos (até 100 milímetros por ano), independentemente da temperatura. Os gelados estão nas regiões polares da Terra e nas raras localidades com altitude superior a 7 quilômetros, como o Himalaia. Suas temperaturas oscilam entre zero e 70 ºC negativos. O maior deserto do mundo, inclusive, não é o do Saara (com 9 milhões de quilômetros quadrados), mas o que está localizado no interior da Antártida e ocupa 80% dos 14 milhões de quilômetros quadrados da região. "




Vejam que a consultoria é de peso. "Consultoria Ricardo Felício, doutor em Climatologia do departamento de Geografia da Universidade de São Paulo."
O que diz a Wikipédia.
O artigo é extenso, defende que a maioria das classificações repousam na quantidade de precipitação e questiona que algumas regiões como Antártico e o Polo Norte recebem pouca precipitação. E depois lê-se:
"A diferença reside no processo de evapotranspiração. A evapotranspiração é a combinação de perda de água por evaporação atmosférica da água do solo, junto com a perda de água também em forma de vapor, através dos processos vitais das plantas. O potencial de evapotranspiração é, portanto, a quantidade de água que poderia evaporar numa dada região. A cidade de Tucson, no Arizona, recebe uns 300 mm (12 polegadas) anuais de chuva, no entanto, uns 2500 mm, (100 polegadas) de água poderiam evaporar no período de um ano. Em outras palavras, significa que quase 8 vezes mais água poderia evaporar da região do que normalmente cai. Já as taxas de evapotranspiração em regiões do Alasca são bastante inferiores; então, mesmo recebendo precipitações mínimas, estas regiões específicas são bem diferentes da definição mais simples de um deserto: um lugar onde a evaporação supera o total da precipitação pluviométrica. A principal característica de um deserto é a seca." (Wikipédia)
O mesmo extenso artigo propõem boas classificações de desertos: polares, costeiros e até de outros planetas. Coloca a Antártida como o maior deserto do mundo.
Apesar das críticas que se tecem sobre a Wikipédia, notamos uma semelhança no conceito apresentada por ela e o conceito de José Bueno Conti.
Vamos partir para alguns livros didáticos. Antes de tecerem críticas aos livros didáticos lembramos que quem os escreve, na maioria absoluta das vezes são grandes pesquisadores. Bem melhores que eu pelo menos.
Para Vesentini:
"[...] são áreas de clima árido e que, geralmente, situam-se no interior dos continentes, tanto em baixas latitudes [...] como em médias latitudes [...]" (VESENTINI, 2005. P.363)
Ainda para Vesentini, eles podem ser quentes, distribuídos entre os trópicos e frios, em regiões de média latitude. Não inclui regiões polares e coloca o Saara como sendo o maior deserto do mundo.
O conceito dado por Vesentini assemelha-se ao do constatado em Demétrio Magnoli e Regina Araujo. Já para João Carlos Moreira e Estáquio de Sene desenvolvem-se desertos em regiões polares.
Também temos um site português sobre educação onde para eles:
"O Bioma Deserto pode ser definido como a soma de todas as áreas áridas e hiper-áridas do globo, em termos climatológicos; numa perspectiva biológica, as ecoregiões que contêm plantas e animais adaptados para a sobrevivência em ambientes áridos e, numa análise física, como grandes e contíguas áreas com amplas extensões de solo sem vegetação e fraca cobertura vegetal. Produzindo um mapa com as áreas abrangidas por estes três critérios obtém-se uma definição dos desertos os planeta que ocupam quase um quarto da superfície do planeta."
Nesse site também se incluem as regiões polares como sendo desertos.
Bom, ao que parece o jogo está meio dividido. Como resolver um impasse se um aluno nos perguntar se os polos são considerados desertos?
Primeiramente que pese a honestidade e o profissionalismo, o correto e fazer esse trajeto proposto aqui (ou, é claro, um melhor) e explicar que o conceito de deserto possui extensões variadas. De nossa parte, não que queiramos propor um novo conceito, inclusive esperamos comentários no sentido de nos ajudar, achamos por bem se fundamentar na proposta de José Bueno Conti e considerar desertos somente as áreas onde evapora mais água do que precipita. Esses seriam os desertos de fato, pois que haveria aridez. E para as regiões polares as chamaríamos de regiões desérticas, por entendermos que há pouca pluviosidade e vida escassa, deixando claro que elas não satisfazem todos os quisitos para serem desertos.
Bibliografia (além das fontes indicadas)
MOREIRA, João Carlos; SENE, Eustáquio de. Geografia. vol. único. São Paulo: Scipione, 2005.
MAGNOLI, Demétrio; ARAUJO, Regina. Geografia: a construção do mundo. vol. único. São Paulo: Moderna, 2005.
VESENITNI, José William. Geografia geral e do Brasil. vol. único. São Paulo: Ática, 2005.

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